A cidade é a fina camada de tijolo e concreto que habita a superfíce de contato entre quilômetros de terra, mar e céu.
"Mas mais que nunca a cidade é tudo o que temos."
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19.9.10
15.9.10
quando là é aqui
Algumas impressões. Imaginem (importante verbo) que sempre pontos de vistas, mas, claro que não, absolutamente definitivos, em todos os sentidos.
Não definem. Não são absolutos. Nem terminados.
Algumas impressões...
Que quando andava e via tanta gente (que não era dali, mas "era" dali, sim). Verdadeiros? Que é verdadeiro?
No primeiro dia estávamos exaustos, pois houve virada de noite de avião. Todavia visitou-se o centro mesmo assim.
De Les Halles até a catedral da nossa senhora, tão famosa.
Depois, tantos passeios, tantas conversas, algumas sonecas, muitos queijos, muitas impressões...
Muito interessante perceber que há cidades que são mostradas em cartões postais, mas que ultrapassam a imagem imaginada. Há cidades que são, ao contrário, hiperimaginadas. Acho que Paris fica no meio termo: é como a imagem pelo ponto de vista de lucrécia neves: a ponte é mesmo a ponte, o beijo é mesmo beijo, o museu é de fato o museu, o sanfonista é o sanfonista e o carrossel é o carrossel.
Acho que existe uma espécie de manutenção da realidade em eterna ficção: uma realidade inventada, um grande cenário verdadeiro, uma cidade feita de propósito de ser si mesma.
Que cidade?
O cartão postal de um beijo, um passeio de mentira pelos boulevards, uma baguete comestível de cenário. Tudo são objetos de cena. Tudo é de fato falso. Inventado de ser si mesmamente falso.
É claro que a época do ano justifica. Mas isso não invalida a experiência, nem, muito menos, a reflexão.
Quando se pode construir memória todo dia?
Quando se é sempre uma eterna mentira de si mesmo, sendo verdadeiramente ela mesma?
Mas, por buscar a imagem de Paris, ela some nestas máscaras turísticas, falsas. Um eterno Epcot?
Não: no momento que não se deseja, no momento mesmo que se esquece, que se perde tempo, quando se desiste, quando não se olha, eis que se revela.
Sempre nos passeios em que se deita e se esquece. Toda vez que se anda de bicicleta ou saboreia o queijo, ou o pão. Ou quando se atravessa e se perde. Nas vezes em que se olha do outro lado. Nos estranhos sons dos trilhos do metrô. Nas paisagens perdidas descobertas. Tanto as vistas, quanto as sentidas. Pela água que escorre. No cheiro. Na memória perdida de La Seine.
"Paris est un théâtre où l'on paye sa place avec du temps perdu."
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12.9.10
d'água

De novo lagoa
paz úmida de rio que chega
e transborda silêncio
da música da chuva
inteira sinfonia de gotas
(emociona-se o vento
não espera
abençoa o casamento
da chuva e da terra)
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15.7.10
processos habitacionais
como ver?
como habitar?
como somar?
como reagir?
como!
http://www.youtube.com/watch?v=vIptDLg8c9Y
é de papel crepom e prata
os olhos verdes da mulata
a cabeleira esconde
atrás da verde mata
o luar do sertão
o monumento não tem porta
a entrada é por uma rua antiga
estreita e torta
e no joelho uma criança
sorridente, feia e morta
estende a mão
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14.6.10
pré-feito

Em forma concretizadora,
informa o prefeito:
"Não queremos planejamento, queremos construção."
"Auto-construam-se, autômatos,
que vos autorizo a crescer aos altos.
Nada de planos, ou linhas e pontos.
Nada verdadeiro ou falso.
Nada de verbos, nem sonhos
Simplesmente os disfarço"
E foi celebrada missa laica, mas cheia de fé e fervor nos gabinetes da câmara dos vereadores.
E o plano diretor virou arquivo de pdf bom pra se usar o verso e dizer-se sustentável.
2.6.10
impressão - pôr do sol

sombra antiga
sede do comércio
sede navegante
pois é preciso mais que viver
sobra d`água,
tromba, trombeta e uns marujos
sujos e borrados
bailarinos impressionantes, quando marginais
tenho a impressão que à margem da cidade
ela mesma, toda furada de canos d`água e canhões de ferro
vai submergir ao delírio hidrogênico de uma bomba d`àgua
daquelas que se faz forte pra molhar a borda de quem se quer seco
e então:
marujos marginais
uns trombadinhas
pegam jacarézinho
no mangue, que espera a sua vez
imagem: rosana seager, 2006
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10.5.10
Portunidade, O

Quando vierem abduzir Seu Obama, Olodum neles! E as fotos de todos os jornais, de todos os outdoors, de todos os panfletos, mostrarão políticos, atletas e edifícios a rodarem ciranda em inglês:
The first was her father,
the second, her brother,
and the third was the one who Teresa gave her hand.
E na capoeira que nasce nos telhados dos galpões abandonados do centro do Rio, colocarão a bandeira de bananeira, em homenagem à invenção do plural.
(Depois da bandeira, que será devidamente fotografada, virão os ladrilhos de brilhantes, para que não se jogue mais capoeira, mas, sim, squash, como em Nova Iorque.)
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