2.6.11

mil novas lâmpadas

sombra dirigível
lavra a noite
na terra inflamável
mil novas lâmpadas

lugarejo de saudade
entre as borboletas
da guilhotina-espelho
mora a moça

que espera?
por que chora?
é o fim da sua terra
quem namora?

é o noivo heróico
que vagueia
parabólico
na cabine

o vento seca o rosto
leva embora o moço
rasga a propaganda

e a menina some da varanda



[o que o vento diz quando ela chora - video de ian capillé]

18.1.11

a próxima nuvem

aproxima-se do chão
vem nuvem
a próxima traz chuva
perto, tão perto
aperto do céu
escorre em córrego
carrega o rápido, o movimento seguinte
o próximo vazio
por onde se vê
o céu azul atrás da próxima nuvem

fonte

O cheiro que chega é de mato
alto cheiro
que chega direto do céu
no alto do chão
um cheiro santo
um salto

A água que corre clara
me limpa a alma
da lama da estrada
alma límpida
calma lavadeira
ladeira de limo

O silêncio é úmido
humilde sorriso simples
um zumbido de respirações
sorridentes e silenciosas
soltas na umidade
etérea do ar

7.10.10

janela em fato

finda a janela
enfim fita
horizonte de fato

4.10.10

por, opor

sonho
tamanha aposta
imposta?

posto há que trazer oposto
apostado.

ponho meu sonho num barco
feito de poema
feito de poeira
de pincel e de píxel

imponho meu sonho no barco
aposto que mil

cem vezes há de voar

19.9.10

pequenez

A cidade é a fina camada de tijolo e concreto que habita a superfíce de contato entre quilômetros de terra, mar e céu.



"Mas mais que nunca a cidade é tudo o que temos."

15.9.10

quando là é aqui

Algumas impressões. Imaginem (importante verbo) que sempre pontos de vistas, mas, claro que não, absolutamente definitivos, em todos os sentidos.
Não definem. Não são absolutos. Nem terminados.
Algumas impressões...

Que quando andava e via tanta gente (que não era dali, mas "era" dali, sim). Verdadeiros? Que é verdadeiro?

No primeiro dia estávamos exaustos, pois houve virada de noite de avião. Todavia visitou-se o centro mesmo assim.
De Les Halles até a catedral da nossa senhora, tão famosa.
Depois, tantos passeios, tantas conversas, algumas sonecas, muitos queijos, muitas impressões...

Muito interessante perceber que há cidades que são mostradas em cartões postais, mas que ultrapassam a imagem imaginada. Há cidades que são, ao contrário, hiperimaginadas. Acho que Paris fica no meio termo: é como a imagem pelo ponto de vista de lucrécia neves: a ponte é mesmo a ponte, o beijo é mesmo beijo, o museu é de fato o museu, o sanfonista é o sanfonista e o carrossel é o carrossel.

Acho que existe uma espécie de manutenção da realidade em eterna ficção: uma realidade inventada, um grande cenário verdadeiro, uma cidade feita de propósito de ser si mesma.

Que cidade?
O cartão postal de um beijo, um passeio de mentira pelos boulevards, uma baguete comestível de cenário. Tudo são objetos de cena. Tudo é de fato falso. Inventado de ser si mesmamente falso.

É claro que a época do ano justifica. Mas isso não invalida a experiência, nem, muito menos, a reflexão.

Quando se pode construir memória todo dia?
Quando se é sempre uma eterna mentira de si mesmo, sendo verdadeiramente ela mesma?

Mas, por buscar a imagem de Paris, ela some nestas máscaras turísticas, falsas. Um eterno Epcot?
Não: no momento que não se deseja, no momento mesmo que se esquece, que se perde tempo, quando se desiste, quando não se olha, eis que se revela.

Sempre nos passeios em que se deita e se esquece. Toda vez que se anda de bicicleta ou saboreia o queijo, ou o pão. Ou quando se atravessa e se perde. Nas vezes em que se olha do outro lado. Nos estranhos sons dos trilhos do metrô. Nas paisagens perdidas descobertas. Tanto as vistas, quanto as sentidas. Pela água que escorre. No cheiro. Na memória perdida de La Seine.

"Paris est un théâtre où l'on paye sa place avec du temps perdu."

12.9.10

d'água


De novo lagoa
paz úmida de rio que chega
e transborda silêncio
da música da chuva
inteira sinfonia de gotas

(emociona-se o vento
não espera
abençoa o casamento
da chuva e da terra)

26.8.10

das cores II

que nascem do som
oco de tambor
de couro cru descolorido
em arco
e cresce no vento
espalhada e vibrante
imensa e impossível gama
tão inflável que pedindo chuva
som liquefeito em corpo arqueado
é reflexo de suor de capoeira
campo mato alto tom de gotas

ela acha que as cores começam no arco-íris

16.8.10

resposta ao eterno retorno

horizonte
plano problema
ponte acima
monte
e crie um poema

12.8.10

pela manhã

Manhã que transbordava pelas curvas
certas pinceladas curvas e míopes
que acertavam o céu
que era nosso, mas despossuímos
e caiu de repente em certa água
umas folhas líquidas
eram somente trechos de elipsóide com tinta
mas eram, na verdade,
trechos de sonho escondido
umas lembranças

quando entrei aqui
nunca mais fui embora
esse cheiro cheio ficou em mim

das cores

Lilás:
silêncio
pensamento
sonho

Azul:
céu
nosso
outro

Rosa:
cheiro
líquido
vento

Branco:
voo
novo
início

Verde:
tempo
vivo
encontro